Chega dezembro e, com ele, o início das tão esperadas férias escolares. Para muitas crianças, esse é o momento mais aguardado do ano: dias livres, diversão garantida e zero tarefas escolares. Mas, para quem está do outro lado — os pais e mães — esse período pode não vir com o mesmo brilho.

Conciliar o trabalho com a rotina da casa, as atividades das crianças e ainda tentar proporcionar momentos de qualidade em família pode se tornar um verdadeiro desafio. Neste texto, vamos falar sobre a saúde mental dos pais durante as férias escolares, entender por que esse período pode ser mais exaustivo do que parece e o que pode ser feito para atravessá-lo com mais leveza e cuidado emocional.

Quando a alegria dos filhos contrasta com o cansaço dos pais

Ver os filhos animados com a chegada das férias é lindo. Mas, junto com essa empolgação, muitos pais experimentam sentimentos de cansaço, frustração e até culpa. Isso acontece porque a rotina é alterada, a energia das crianças parece inesgotável e o tempo, já escasso, precisa ser reorganizado.

Além disso, há uma pressão silenciosa que acompanha esse período: a de ser um “bom pai” ou uma “boa mãe”, presente, criativo, paciente. Acontece que, nem sempre, isso é possível — e tudo bem. O cansaço que aparece não é sinal de desamor, mas de sobrecarga. Reconhecer isso é o primeiro passo para buscar alternativas mais saudáveis.

Também é importante lembrar que, para muitos pais, as férias dos filhos não coincidem com as férias do trabalho. Isso significa que é preciso trabalhar, cuidar da casa, organizar a rotina e ainda criar programações para as crianças — o que, por si só, já exige um nível alto de energia física e mental. E nem sempre há rede de apoio suficiente para dividir essas responsabilidades.

Burnout parental existe e pode piorar nas férias

Você já ouviu falar em burnout parental? Essa condição, que vem sendo estudada nos últimos anos, diz respeito a um esgotamento físico e emocional relacionado à função de cuidar. Ela não é exclusividade do ambiente de trabalho: pode (e costuma) surgir dentro de casa.

Durante as férias, quando a demanda por atenção, atividades e presença aumenta, esse esgotamento pode se intensificar. Os sintomas são variados: irritabilidade, sensação de incompetência, perda do prazer na convivência familiar, vontade constante de se isolar e até crises de choro ou insônia.

Pais e mães tendem a ignorar esses sinais, acreditando que “vai passar”. Mas quando não há espaço para descanso e autocuidado, o desgaste se acumula. Por isso, é tão importante validar essas emoções e entender que pedir ajuda não é fraqueza, e sim um sinal de responsabilidade.

E mais: essa exaustão emocional não desaparece por mágica quando janeiro acaba. Se negligenciada, ela pode perdurar, interferir nas relações familiares e até impactar o desempenho profissional e social dos pais. Reconhecer e acolher esses sinais precocemente é essencial.

A sobrecarga emocional também pode gerar sintomas depressivos

Quando a rotina exige demais e não há tempo para se recuperar emocionalmente, sintomas depressivos podem aparecer. Muitos pais e mães relatam tristeza constante, apatia, sensação de estar “falhando” e dificuldade em sentir prazer, até mesmo em momentos felizes com os filhos.

A tentativa de dar conta de tudo — trabalho, casa, educação, brincadeiras, alimentação, tempo de qualidade — pode ser exaustiva. E quando esse esforço é acompanhado por cobranças internas e sociais, o sofrimento se aprofunda.

É importante lembrar: sentir-se esgotado não significa não amar os filhos. Pelo contrário, quem cuida com tanto esforço e dedicação precisa ser cuidado também. E falar sobre isso é um passo corajoso na direção da saúde emocional.

E para as mães, tudo isso pesa ainda mais

Embora o cansaço atinja pais e mães, as mulheres costumam sentir esse peso de forma mais intensa. Isso se deve a uma série de fatores sociais e culturais: divisão desigual das tarefas domésticas, carga mental invisível, idealização da maternidade, entre outros.

Durante as férias, essa sobrecarga se torna ainda mais evidente. Muitas mães seguem trabalhando fora ou de casa, enquanto tentam preencher os dias dos filhos com atividades, manter a casa organizada e ainda lidar com as próprias emoções.

Essa exaustão acumulada pode impactar diretamente a saúde mental e emocional da mulher, afetando inclusive sua relação com os filhos e com ela mesma. Por isso, é fundamental que esse cenário seja discutido, compreendido e, sempre que possível, transformado.

Mais empatia, mais escuta e mais divisão de responsabilidades dentro das famílias podem ser caminhos importantes para reduzir essa sobrecarga — nas férias e em todos os outros meses do ano.

Cuidar de quem cuida: apoio emocional e acompanhamento profissional

Em períodos de maior exigência emocional, como as férias escolares, contar com apoio é essencial. Dividir tarefas, pedir ajuda à rede de apoio (família) e, principalmente, falar sobre o que está sentindo, são atitudes que fazem diferença.

Buscar ajuda profissional também é um passo importante. Conversar com um psicólogo ou psiquiatra pode trazer alívio, novas perspectivas e estratégias para lidar com a rotina de forma mais saudável. Não é preciso esperar chegar ao limite para procurar apoio.

Cuidar da saúde mental é um gesto de amor — pelos filhos, sim, mas principalmente por você. E esse cuidado começa por reconhecer que você também merece atenção, escuta, descanso e acolhimento.

Se neste período você tem se sentido sobrecarregado, cansado ou emocionalmente exausto, saiba que você não está sozinho. O cuidado com a sua saúde mental também importa. E se precisar de acolhimento ou orientação profissional, estou à disposição para te ouvir. 

Dra. Veridiana Moura Moyses

| Médica Psiquiatra

| CRM-SP 150.946

| RQE 61.340

Referências:

CNN Brasil. Burnout parental: entenda o quadro de exaustão que afeta mães e pais. 2023

Skjerdingstad N, Johnson MS, Johnson SU, Hoffart A, Ebrahimi OV. Daily dynamics of parental mental health: Investigating depressive symptoms and negative parental experiences. J Psychiatr Res. 2025 Oct;190:341-346. doi: 10.1016/j.jpsychires.2025.08.007. Epub 2025 Aug 7. PMID: 40819622. 

Adams EL, Smith D, Caccavale LJ, Bean MK. Parents Are Stressed! Patterns of Parent Stress Across COVID-19. Front Psychiatry. 2021 Apr 8;12:626456. doi: 10.3389/fpsyt.2021.626456. PMID: 33897489; PMCID: PMC8060456.

Paula AJ de, Condeles PC, Moreno AL, Ferreira MBG, Fonseca LMM, Ruiz MT. Parental burnout: a scoping review. Rev Bras Enferm [Internet]. 2022;75:e20210203. Available from: https://doi.org/10.1590/0034-7167-2021-0203 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *