A proliferação de conteúdos sobre saúde mental e neurodivergências nas redes sociais mudou a maneira como lidamos com o bem-estar psíquico. Hoje, com poucos cliques em vídeos curtos, qualquer pessoa tem acesso a dA dificuldade de manter a concentração e as falhas de memória tornaram-se queixas comuns na rotina moderna. Diante da popularização de informações sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), é natural que muitas pessoas associem a dispersão a essa condição neurobiológica. Contudo, do ponto de vista da medicina psiquiátrica, a desatenção é um sintoma inespecífico e ela pode ser desencadeada por múltiplos fatores, variando entre a privação de sono e outros transtornos mentais. Entender essa complexidade é o primeiro passo para encontrar a abordagem correta e restabelecer o bem-estar e o desempenho cognitivo diário.

O papel do sono na sustentação do foco e da concentração

O sono adequado desempenha uma função fisiológica importante na consolidação da memória e no suporte às funções executivas do cérebro. Quando o sono é insuficiente ou de má qualidade, o funcionamento cognitivo é prejudicado, mimetizando quadros de desatenção.

A neurociência demonstra que a relação entre a duração do sono e a capacidade de concentração ocorre de forma mediada. A restrição do descanso gera um acúmulo de fadiga física e de fadiga mental subjetiva, e são esses dois fatores que degradam a capacidade de focar em tarefas do dia a dia. Dessa forma, o sono afeta a concentração ao atuar na redução do cansaço corporal e psíquico.

Além disso, pesquisas sobre a restrição parcial do sono (como dormir apenas 5 horas por noite ao longo de uma semana) revelam que a suscetibilidade individual às falhas atencionais (lapses de vigilância) impacta outros domínios da mente. Em indivíduos mais vulneráveis à privação de descanso, as falhas de atenção mascaram os ganhos naturais de aprendizado que ocorreriam pelo efeito de prática em tarefas de memória de trabalho e de processamento visuoespacial. 

Um ponto evidenciado por estudos experimentais é que apenas uma noite de sono de recuperação costuma ser insuficiente para restaurar o desempenho da memória aos níveis basais adequados. Ou seja, noites mal dormidas em sequência geram um déficit acumulado que prejudica a clareza mental.

Desatenção além do TDAH: o que a ciência mostra sobre outros transtornos

Embora o TDAH seja associado aos problemas de atenção sustentada, a literatura científica demonstra que prejuízos atencionais expressivos ocorrem em uma variedade de diagnósticos psiquiátricos. Avaliações clínicas computadorizadas de desempenho contínuo mostram que falhas de atenção não são exclusivas do TDAH.

Estudos revelam que condições como o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), a Fobia Social (Transtorno de Ansiedade Social), a Bulimia Nervosa, o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica e o Transtorno Explosivo Intermitente apresentam comprometimentos na sensibilidade para detectar alvos e na manutenção da atenção. Em muitos casos, os índices de prejuízo na atenção sustentada observados no TOC e na fobia social são superiores aos mensurados em indivíduos com TDAH.

A explicação clínica para esse fenômeno reside no modo como esses transtornos ocupam a capacidade cognitiva. Uma possível pode ser que, no TOC, por exemplo, pensamentos obsessivos e rituais consomem recursos mentais, não deixando margem para que a atenção se fixe nas demandas externas. Na ansiedade social ou generalizada, a hipervigilância a ameaças e a ruminação constante desviam o foco do momento presente. Assim, a queixa primária do paciente pode ser a “falta de foco”, mas a causa de origem é o esgotamento da atenção provocado por outra condição emocional ou psicológica.

Como identificar hábitos prejudiciais no dia a dia

Para compreender as razões da oscilação na concentração, vale observar a rotina diária e identificar comportamentos que sobrecarregam o sistema nervoso. Alguns hábitos frequentes incluem:

  • Privação contínua de sono: Manter horários irregulares para deitar e acordar, ou dormir menos horas do que o corpo necessita para a recuperação.
  • Excesso de estimulação noturna: Uso prolongado de telas (celulares, computadores e televisão) próximo ao horário de dormir, o que prejudica a indução natural do descanso.
  • Sobrecarga de tarefas e estresse contínuo: Tentar gerenciar múltiplas demandas simultaneamente, gerando fadiga mental crônica.
  • Uso inadequado ou automedicação de substâncias: Uso excessivo de cafeína ou estimulantes para compensar o cansaço diurno, o que perpetua o ciclo de ansiedade e sono de má qualidade.

A importância da avaliação médica especializada

Devido à sobreposição de sintomas entre a privação de sono, transtornos de ansiedade, depressão e TDAH, o diagnóstico correto exige uma investigação psiquiátrica. Assumir de forma precipitada que qualquer dificuldade de foco decorre de TDAH pode levar a condutas inadequadas. Enquanto o manejo do TDAH envolve medicações estimulantes específicas, o tratamento de quadros de ansiedade ou transtornos do humor requer abordagens terapêuticas e farmacológicas distintas.

A avaliação médica especializada analisa o histórico de vida do paciente, o padrão de sono, o nível de estresse e a presença de outros sintomas emocionais. Esse diagnóstico garante a indicação do plano de cuidado mais seguro e eficaz para cada necessidade.

Se a falta de foco, a fadiga mental ou a desorganização estão impactando sua qualidade de vida, trabalho ou relacionamentos, agende uma consulta de avaliação médica especializada para investigar as causas e restabelecer sua saúde mental.

Dra. Veridiana Moura Moyses
| Médica Psiquiatra
| CRM-SP 150.946
| RQE 61.340

Referências:

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Mathew, G.M., Strayer, S.M., Ness, K.M. et al. Interindividual differences in attentional vulnerability moderate cognitive performance during sleep restriction and subsequent recovery in healthy young men. Sci Rep 11, 19147 (2021). https://doi.org/10.1038/s41598-021-95884-w

Grant JE, Chamberlain SR. Attentional problems occur across multiple psychiatric disorders and are not specific for ADHD. CNS Spectr. 2023;28(3):357-360. doi:10.1017/S1092852922000785.

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