As Inteligências Artificiais de luto, conhecidas como deathbots ou griefbots, são sistemas programados para simular a forma de interação e ação de pessoas que já faleceram. A partir do cruzamento de dados de impressões digitais, como mensagens de texto, áudios do WhatsApp, e-mails e publicações em redes sociais, os algoritmos geram um avatar capaz de manter conversas dinâmicas com os enlutados. Embora a promessa de um “último adeus” ou da manutenção da voz de quem se ama possa soar reconfortante à primeira vista, médicos e pesquisadores acompanham essa inovação com cautela, alertando para os impactos na saúde mental.

O que são as IAs de luto e como elas funcionam?

Para compreender o funcionamento dessa tecnologia, é preciso entender que ela se baseia no processamento de linguagem natural e em modelos probabilísticos de dados. Quando uma pessoa interage com a internet ao longo da vida, ela deixa rastros de sua personalidade, vocabulário e preferências. Empresas especializadas recolhem esses fragmentos e alimentam a Inteligência Artificial. O resultado é uma ferramenta capaz de responder a perguntas e imitar os trejeitos linguísticos de quem partiu.

Diferente de ver uma fotografia ou assistir a um vídeo antigo, que são conteúdos estáticos, o deathbot cria a ilusão de uma resposta ativa e contínua no presente. A  comunidade científica reforça um ponto: por mais avançada que seja a tecnologia, o sistema opera por estatística e código. A máquina não possui consciência, afetividade autêntica, empatia ou compreensão da dor humana.Trata-se de uma tecnologia que simula o afeto.

A falsa sensação de continuidade e o bloqueio do luto

O luto saudável envolve um processo psíquico gradativo, no qual a pessoa enlutada reconhece o fato da perda e reorganiza seus vínculos afetivos de forma interna. É o confronto com a ausência física que permite a elaboração da dor, a maturidade emocional e a aceitação da nova realidade sem o ente querido.

Ao disponibilizar um canal de conversa, a IA de luto pode suspender temporariamente a percepção do tempo e favorecer a negação. O enlutado corre o risco de se refugiar em uma ilusão confortável de que a pessoa “ainda está ali”, mantendo o vínculo externalizado na tela. Esse comportamento de esquiva impede a conclusão natural do luto e pode paralisar o indivíduo em um estado contínuo de apego à réplica virtual.

Risco de dependência e os perigos da “segunda perda”

A dor da perda deixa o indivíduo em uma condição de vulnerabilidade emocional. A facilidade de acessar o deathbot a qualquer momento, ao alcance de um clique, pode gerar uma dependência emocional. Em vez de buscar suporte na família, em amigos ou em acompanhamento terapêutico, a pessoa enlutada pode se isolar progressivamente no diálogo com a máquina.

Além da dependência, especialistas em ética e saúde mental apontam o risco da chamada “segunda perda”. Caso a empresa desenvolvedora do bot encerre suas atividades, enfrente falhas técnicas ou altere suas diretrizes comerciais, o enlutado pode perder o acesso à simulação abruptamente. Esse descarte involuntário da réplica é vivenciado pelo cérebro como uma revivência do trauma original, fazendo com que o indivíduo passe pelo sofrimento do falecimento como se ocorresse uma segunda vez.

Exploração comercial da dor humana

Outra preocupação ética importante em relação às IAs de luto é a mercantilização da perda. A indústria de tecnologia voltada ao “pós-vida digital” é movida pelo lucro corporativo. Empresas que controlam deathbots podem utilizar estratégias de retenção para manter os usuários engajados o maior tempo possível.

Sabendo que o usuário reluta em interromper o contato por receio de perder a ligação com a memória do falecido, fornecedores podem emitir notificações não solicitadas e induzir compras. Existe até o risco da inserção de anúncios subliminares no estilo de fala da simulação, na qual a IA recomenda produtos com a “voz” ou preferências de quem morreu. Essa prática viola a autonomia do usuário e explora um momento de sofrimento psicológico.

Como vivenciar o luto de forma saudável 

A dor de perder quem amamos é inevitável e não deve ser encarada como uma doença a ser erradicada rapidamente. O luto exige acolhimento, paciência com os próprios sentimentos e tempo para a reconstrução da rotina.

Para atravessar esse processo sem recorrer a atalhos tecnológicos que possam comprometer a saúde mental, recomenda-se:

  • Respeitar o próprio tempo: Permita-se sentir a tristeza, a saudade e a dor sem se cobrar uma recuperação imediata.
  • Fortalecer a rede de apoio: Aproxime-se de familiares, amigos e pessoas queridas que ofereçam escuta.
  • Preservar memórias reais: Honre a memória do ente querido através de fotos, registros físicos, cartas e recordações compartilhadas, reconhecendo com carinho o valor da vida que foi vivida.
  • Participar de rituais simbólicos: Cerimônias de despedida e homenagens ajudam a dar contorno e significado à perda junto à comunidade.
  • Buscar ajuda profissional: Se a dor persistir de forma incapacitante, impedindo as atividades do cotidiano, é necessário buscar a orientação de um psicólogo ou médico psiquiatra.

Se você ou alguém próximo está passando por um momento difícil de perda e tem dificuldades para atravessar o luto, procure ajuda médica especializada para receber o suporte adequado. E caso necessário, pode entrar em contato comigo para uma consulta.

Dra. Veridiana Moura Moyses
| Médica Psiquiatra
| CRM-SP 150.946
| RQE 61.340

Referências:

Lindemann, N.F. The Ethics of ‘Deathbots’. Sci Eng Ethics 28, 60 (2022). https://doi.org/10.1007/s11948-022-00417-x

Lemma, A. (2024). Mourning, melancholia and machines: An applied psychoanalytic investigation of mourning in the age of griefbots*. The International Journal of Psychoanalysis, 105(4), 542–563. https://doi.org/10.1080/00207578.2024.2342917

Jiménez-Alonso, B., Brescó de Luna, I. Griefbots. A New Way of Communicating With The Dead?. Integr. psych. behav. 57, 466–481 (2023). https://doi.org/10.1007/s12124-022-09679-3

Bao, A., Zeng, Y. Embracing grief in the age of deathbots: a temporary tool, not a permanent solution. Ethics Inf Technol 26, 7 (2024). https://doi.org/10.1007/s10676-024-09744-y

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